ANCHIETA ANTUNES / VALMIR VIANA





 ANCHIETA ANTUNES




COLINA                                                                        Reflexão 



De mãos dadas subimos a colina sem perder de vista a distancia que nos separa do passado, dos passos que faltam para atingir o futuro. De mãos dadas caminhamos sem a pressa do momento seguinte que virá à nossa revelia, que neste momento é futuro e no seguinte é memória, sem conceito ou rebeldia. No frenesi da vida palpitante escolhi a alegria para dizer o que sinto.
Gosto de sentir-me com meu eterno amor, ereto nas asas da liberdade flutuando de mãos dadas com desvelo e com ardor.  Na subida alegre e viva, pingos de chuva revelam nossas almas em festejos, e purificam nossos espíritos, banham nossos corações, eternos juvenis, deitando calor e carinho, cavando com todo cuidado nosso ultimo ninho.
De mãos dadas montamos no lombo da vida para cavalgar nossos destinos, percorrendo sendas desconhecidas, esquivando-nos de galhos intempestivos  que nos afrontam como se verdades fossem, como se fizessem parte da nossa jornada em direção ao nosso paraíso etéreo, após nosso ultimo adeus.
De mãos dadas vamos flamejantes desafiando obstáculos ocultos nas sombras covardes do futuro obscuro e indevassável. Apenas nos provimos de coragem, destemor, e espírito de aventuras laicas e lúbricas. A vida foi feita para viver, não para interrogar! Na  vida não cabe duvidas, apenas  comporta cada momento pulsante de paixão.
No azul do arco-íris pintamos nossas emoções para ficarem da mesma cor de nossos sonhos, que um dia serão desejos, e no seguinte vida experimental. Precisamos virar cada pagina para descobrir o momento de futuro imediato, como se nosso fôlego dependesse da certeza dramática do conhecimento de um porvir duvidoso. Vã filosofia, pobres esperanças esgarçadas pelos ventos do leste. 


ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 30/09/2014.
 





ESTRADA   DE   FERRO


De ferro batido
no leito dos anos
dormentes dormidos,
unindo distancias
fazendo alarido
Estrada que leva,
pra longe da gente
lembranças mordazes
que junta e separa
saudades sofridas
de amores fugazes

Estrada de ferro
cruzando fronteiras
ligando nações
com sonhos de paz,
luzindo paisagens
de picos nevados.
de grutas escuras
de sonhos alados.

Nos trilhos deitados
fulgindo no lombo
as folhas dos tempos.
Brilhantes lampejos
ardentes e frágeis
guardando esperanças
de brilho candente.

Estrada de ferro
que vem e que vai
afronta barreiras,
canduras e dores
loucuras, amores
o fim  e o começo.
de velhas historias
de honra, de gloria.

Caminhos dos campos
das pontes, das águas
a estrada viaja,
sibila, claudica
outros espirais ...
do ontem e hoje,
as voltas da vida
que leva e trás.


ALAOMPE
Anchieta Antunes- Copyright
Gravatá – 30/08/2014,


AMIGO      

AMIZADE



É como a vastidão dos sonhos
como o sapato velho
que acolhe o pé com suavidade,
como o cofre no fundo do baú
cheio de memórias e
segredos consagrados
pela liturgia diária.

Amigo,
guardião do passado
esperança de futuro,
livro da fidúcia
depositário de confidencias
“gargalhadas com intimidade
da confiança” -
catedral da confiabilidade
nave da fé incorruptível,
sentido e sensibilidade.

            A amizade é o refugio da serenidade, do pacato entardecer ouvindo o sussurro da aragem soprada pela inegabilidade do pacto de fidelidade entre dois indivíduos inteiros de caráter, de correição e de cumplicidade. A amizade é a sagração do elo humano, da entrega sem temor, do adeus nunca dito.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá = 26/07/14.



“DISCUSSÃO”

            Fiquei muito chateado e tive um bate-boca sério com ele, que entrou no meu quarto com uma voracidade incrível, escancarando minha janela como se fosse o dono da casa; mal educado e arrogante, não teve nem a delicadeza de mandar uma brisa avisar que estava chegando para uma visita de cortesia. Cortesia coisa nenhuma, foi abrindo revistas, revirando as folhas do livro que estou lendo, levando o lençol para o outro lado da rua dos sonhos, batendo portas e derrubando o jarro de cristal que a minha mulher tanto gosta; ela ficou desolada, embora a peça de seus sonhos não tenha sido quebrada.  Todos no quarto e na sala ficamos assustados com o despudor, com o comportamento predatório do elemento ufano. Ele continuou percorrendo toda a casa, como se estivesse procurando alguma coisa importante. Não estava em busca de nada, era pura curiosidade.
            Fiquei indignado quando ele tentou me subornar, dizendo:_eu conheço muitos segredos que posso revelar para você! 
            _Segredos? Quais segredos, segredos de quem, e para que quero conhecer os segredos de outras pessoas?
            _Conheço todos os segredos da natureza, como também das pessoas, inclusive figuras importantes da sociedade. Quer que lhe diga? Pelo menos é uma maneira de me desculpar pelos estragos que fiz na sua casa; por sinal, percorri sua casa toda e não descobri nada interessante, que coisa mais sem graça!
            Eu não tenho, nem minha família tem segredos! Apenas carregamos calados nossas dificuldades, que ninguém precisa saber, principalmente porque não vão resolver nada.
Ele me revelou umas coisinhas que me deixaram bastante intrigado, por exemplo: quando ele está descansando em sua caverna predileta, lá no Himalaia, recebe ordens de destruir cidades inteiras, arrasar vales e montanhas, tudo na sua forma mais furibunda, e assim, de um momento pra outro, não tem nem tempo de se espreguiçar, bocejar e soltar os suspiros matinais. Ele desce da Cordilheira de olhos fechados para não ver o estrago que vai deixando atrás de si, como um maluco endiabrado, não deixa pedra sobre pedra; e o pior de tudo é que é aconselhado a não sentir remorso.
Ele tem um irmão que adora vaguear por entre as árvores das florestas, alisando o dorso das feras, quebrando galhos pendentes, derrubando pássaros passantes. Escuta a conversa dos papagaios, observa o namoro do uirapuru, e grita com a araponga, depois vai arrepiar a nudez do igarapé, e não deixa de se  escarranchar no último galho da samauma.
Na praia ele empurra a “caravela” para a beira-mar, deita-a na areia e fica esperando as crianças virem brincar com o ácido azul. Não faz isso por maldade, apenas obedece sua natureza.
No “Sertão”, um primo pobre do nosso amigo gigante, chamado “pé de vento” aparece do nada, levanta poeira, alguns galhos secos, e vai embora deixando pra trás o som de sua gargalhada por ter assombrado um monte de passantes. O pé de vento é rápido como um raio, e sobe no ar espiralado, rodopia e desaparece como alma deambulante. É filho único.
Pois é, meu amigo vento chega quando quer, sem avisar, e muitas vezes quebrando tudo que encontra pela frente, como se fosse o dono do mundo. Ele é irreverente e audaz, não pede licença, nem se desculpa por nenhuma desfeita. É atrevido como a luz do sol, só respeita as cavernas profundas, onde não consegue penetrar.
Meu amigo vento pode ser chamado de
           
            “tornado” “furacão” “tufão”, “vendaval”, “ciclone”, “redemoinho”,             “tempestade”.aragem” “brisa” e apenas “vento refrescante”.


ALAOMPE

Anchieta Antunes

Copyright

Gravatá- 16/07/14.







         
POEMA DO CORAÇÃO



I -

Lancinantes dores
contorções avulsas
corpo pesado
cérebro exausto
quebrados os uivos
no corpo fraco.
Músculos,
palpita
  ações
receios,
transfigura
    ações
elementos
rota
     ações,
prova
     ações
inter
     ações
Infarto.




II -

Coração de bengala
alamedas desconhecidas
elevadores, corredores
branco brilhante
máscaras engomadas
metais fulgentes
cortes precisos
sono intenso
talho fundo.
Hospital.




III -

Veias azuis recebem
pingos cadentes
pulso  vermelho
telha rubra
quarto suave
luz esmaecida
vida adormecida
infarto vencido.




Placidez  no regaço
do amor primeiro
o milagre do beijo
cadência do amor.
Salvo.



Anchieta Antunes   -   Gravatá, 11/02/14.




 DESEJOS    


Distante nos olhos,
colinas,  
declives,
ondulações de
Eva deitada.
Coxas roliças,
curvas, cavas, covas,
guardando segredos
desejos sacrílegos
me assaltam.
No carma
na carne
na cama.
Sonolência vulcânica..

Anchieta Antunes


Gravatá – 23/01/14.





L A V A D E I R A



Na curva do  rio
melíflua criatura
de pele tisnada
sem jaça na cepa,
vontades desfraldadas
no mastro liberto
de dotes marcados,
o tônus vibrante
como leiva verdejante.


Menina moça,
caracóis dourados
encimando as curvas,
meandros intocáveis,
natureza a pujar;
tão grande por dentro,
pequena por fora;
uma fresta nas nuvens
e a luz insinua-se
por entre pernas roliças
marcando os caminhos
do desejo viçoso,
da vontade contida
do prazer reservado,
sem laços ou liças
sem tempo de ser.


Lavadeira que torce
roupa e tempo,
imagens que correm
rio abaixo,
redemoinhos,
remanso dormido
sob sol abrasivo,
menina desnuda
assentada na sombra
do umbuzeiro em flor,
pronta para deitar
no Vesúvio viscoso
a gota reprodutora
de vida que molda,
de aluvião que cria,
que surge e ressurge,
que brilha nos olhos
o riso da vida.


Lavadeira solitária
pinta ao redor
com roupas coloridas,
quadradas, listradas,
azuis e vermelhas,
seu quadro dengoso,
estilo histórico
de eras longínquas
das mentes febris,
de noites abertas,
de vôos libertinos.


A prosa em versos
cantam os dias,
curtem os risos,
que sulcam os olhos
rasgados alegres,
tombados na brisa
do entardecer despido
de horas, de tempos, de vagas.


Lavadeira dolente
vem comigo
sem beira nem ente,
sentir o prazer
do macio viver,
vem olhar surpresa
a réstia de luz
regando a escuridão,
vem comigo
rolar na areia do rio,
molhar o molhado,
sugar o sugado,
esquecer o passado,
criar o futuro,
apagar invasora
a luz indevida,
acender nossa chama
interna e eterna,
iluminar o salão
das valsas da vida.


Vem...lavadeira


      Espero...


Eterna é a luz...
Da chama divina.


Anchieta Antunes
Gravatá –  02/01/14.







MINHA     CHOÇA


Era minha, e mais ainda porque eu a construí sozinho, sem ajuda. Claro! Contei com o beneplácito do barro à margem do rio que circunda minha pequena propriedade. Foram dois meses de luta; pela manhã trabalhava na lavoura, pois tinha que prover meu sustente, e à tarde, geralmente mais quentes, levantava minha choupana.
Primeiros móveis: caixotes vazios que ganhei dos amigos na feira do sábado. Uma quartinha de barro, e o copo era uma lata vazia de leite moça. Um pote grande cheio com água do rio, coada três vezes, para purificar. Muito tempo depois comecei a ferver a água no fogo de lenha para, depois de fria, botar no pote. Banho? No rio, ora! Onde mais? Águas correntes lavam até o que a gente não vê!
Minha cama: um primor de desenho artesanal. Primeiro tive que providenciar uma foice, umas embiras de bananeira e ganhar o mato à procura de vara verde. Cortei mais ou menos umas trinta varas, amarrei com as embiras, trouxe pra casa e botei pra secar no oitão da “casa”. Um mês depois, com um sol de rachar, as varas estavam secas de estralar, prontas para armarem minha cama. Passei um domingo inteiro fabricando minha cama de casal. É claro que eu era solteiro, mas estava pronto para casar, só faltava encontrar a morena dengosa.
A lavoura estava uma maravilha e no próximo fim de semana teria minha primeira féria na feira da cidade. O que eu plantava? Pra que você quer saber, vai querer comprar? Vai nada, leitor não compra, leitor lê. A minha sorte, que eu ajudei a ter, foi que comprei um sitio na beira do rio. Nome do rio: “RIO DE ÁGUAS CLARAS E ABUNDANTES”. _Cara, que conversa é esta? Isto não é nome de rio! Rio de águas claras e abundantes, é mais apropriado para nome de romance. _Meu amigo, o rio passa nas minhas terras, molha minha lavoura, lava minha  roupa, limpa meu corpo, mata minha sede, será que não tenho o direito de colocar o nome que eu quiser. O Governo que se dê ao trabalho de colocar o nome que escolher, eu não quero nem saber qual é! A única coisa que o Governo dá pra gente é nome de rio, de ruas e cidades, o resto ele toma tudo. Toma o imposto, um pedaço do salário, toma o tempo do pobre nas filas, toma a dignidade e o amor próprio. Orgulho? Nem sei mais o que é isto!
Deixa o governo pra lá antes que ele venha tomar minha lavoura pra dar pros índios. O colchão da minha cama, eu mesmo fiz com capim e trapos emendados. Ficou macio que só! Durmo a noite toda e só acordo quando o sol vem bater na minha janela. Só quero saber se quando eu tiver minha morena do lado, se ele vem se intrometer na nossa vida. Espero que não. Boto logo três tabuas na janela para não deixar que ele entre. Foguinho este atrevido e enxerido. A casa é minha, a cama é minha, a mulher é minha, ou melhor,  somos um do outro, e de manhã cedo não convido ninguém para entrar. Ainda estou com ressaca de amor, cheirando a safadeza. Mas isso é só quando me casar. Quando será?
A minha trigueira eu a moldei em meus sonhos noturnos e solitários, olhando a lua, escutando o cri, cri do grilo, e ouvindo a musica do rio molhando o chão. Era formosa e faceira, cabelos longos e brilhando com cheiro de leite de coco. Um riso safado brincando no seu rosto comprido. Os olhos cintilavam mais que a estrela Dalva. Cintura fina e pernas compridas balançando os quadris, convidando para a vida. Tudo isto eu via nos meus sonhos, ficava encantado e ansioso esperando o dia em que ela batesse na minha porta. Ia esperar muito, quer milagre, é? Vá atrás não, pra ver no que dá! Vai morrer sozinho, pobre coitado.
Uma noite de dezembro, na quermesse da Matriz eu a vi, primeiro de longe, depois fui me aproximando com um receio tão grande que me fazia tremer todinho. Parecia que eu era todo feito de paixão, de arrebatamento, de amor. _Aquela é a mãe de meus filhos! Pensava comigo mesmo. Tô ficando doido, é? Não sei nem o nome da menina e na minha cabeça ela já é mãe! Arre! Calma meu bichinho, ela tem pai e mãe, né tão fácil assim não!
Fui chegando pertinho, bem devagarzinho como cão caçador, sem fazer barulho pra não levantar a lebre. De pertinho ela era mais bonita que Nossa Senhora, fiquei doidinho, queria logo ela. _Como é seu nome meu amor, quer se casar comigo? Foi a primeira coisa que disse pra ela: não é coisa de gente maluca? _Tá ficando doido moço, eu nem lhe conheço. Meu pai ta logo ali sentado naquela mesa, quer que eu chame ele? Aí sim, o senhor vai gostar muito. Olha só a “lambedeira” que ele tem na cintura!
Encarei o pai, a mãe e a lambedeira e ganhei a noite, saí vitorioso, conheci, como manda o figurino, aquela menina com quem eu sonhei tantas noites. Solange da Silva. É o nome dela, também é o nome de minha felicidade.
Três meses depois só escutei o padre quando ele disse:_...e sejam felizes para sempre, pode beijar a noiva. Já dei tanto beijo na minha Sol, que não tem aritmética que consiga contar. Nos primeiros tempos ela nem precisava ir pra beira do rio pra lavar roupa; que roupa? A gente não usava! Pra que usar roupa se somos só nós dois? O vizinho mais perto fica  pelo menos a dois quilômetros de distancia, e não vem nunca nos visitar, não tem tempo, é um trabalhador como todos nós da lavoura.
Quatro anos depois tínhamos três barrigudinhos rondando nossos pés. Todo mundo nu, os meninos, nós não, temos que dar o bom exemplo. Não sei que bom exemplo é este se Deus nos fez nus, assim como Adão e Eva! A maldade ta na cabeça do homem. Criança não peca, nem sabe o que é o pecado. Vida no campo não tem pecado porque não tem bebida, não tem a mulher do próximo, nem do distante, a não ser a sua mesmo. Não tem mexerico, nem inveja, tem muito é cansaço e  bicho de pé. No fim do dia, um banho, uma sopa e uma cama, às vezes a cama serve até pra dormir.
Progredi muito na vida. Engraçado! Quando a gente fala “progredi” todo mundo já sabe que estamos falando de dinheiro, quando podia ser tanta coisa diferente, como ganho de cultura, conhecimentos, viagens e tanta coisa mais. Mas o homem é bichinho nojento, só pensa em grana. Pois é, já comprei quatro sítios lindeiros com o meu e agora estou criando gado alem da lavoura. Meu sogro me ajudou muito. Ele já criava gado e me ensinou o oficio. Criar gado trás um excelente rendimento, que o diga meu amigo Roberto.
O fato meus amigos é que hoje temos uma senhora casa, cinco filhos, cada um na sua cama “comprada em loja” , a nossa também, temos nossa camioneta, os meninos e meninas estudam em bons colégios e temos uma respeitável conta bancaria. Somos completos e felizes para sempre, como disse o padre lá atrás, lembram?
Minha amiga Cirse, sempre diz que todo conto tem que ter uma tragédia no começo, no meio ou no fim, mas como este conto é meu, não tem nem vai ter tragédia nenhuma, de tragédia basta nossa vida atribulada (ou será que “complicada” fica melhor?) nas grandes metrópoles, com filas, engarrafamento, assaltos e alagamentos. Quer mais tragédia? Pede uma ajudinha ao capeta, quem sabe!     Será?


Anchieta Antunes
Gravatá –  04/01/14.






“INFARTEI”

Parte III – UTI Coronariana

Um anfiteatro de espelhos oblongos refletindo imagens esmaecidas de vidas

escorrendo pelo ralo da desilusão. Os “ANJOS DA VIDA” sempre atentos, cuidadosos,

silenciosos, obsequiosos e competentes, presentes em cada momento, em cada

necessidade, em cada suplica. Incansáveis anjos alados e “onipresentes”, cerzindo o pano

da existência com fios de esperanças, que colocam suas mãos curadoras sobre os corpos

despidos, de gentes desconhecidas, que têm os espíritos vencidos pela dor, pelo

sofrimento, pela angustia da desilusão. Sangue que flui sob dobras de lençóis esterilizados,

gente com as janelas da alma fechadas, com respiração ofegante, com esgares noturnos.

Gente. Um traço de gente, que volta ao mundo dos animados pelas mãos dos ANJOS DA

A dinâmica de uma UTI CORONARIANA, é quase perfeita; não digo que é perfeita

porque conta com dois elementos fundamentais: “homens e máquinas”. Os dois são

imperfeitos. Dos primeiros depreendemos organização, planejamento, hierarquia,

obediência, e “absoluto senso de responsabilidade”, além de dedicação, amor, carinho e

abnegação. Aquelas pessoas trabalham com o desvelo que a mãe dedica ao seu bebe, com

a pureza que exige o sacerdócio. Em momento algum percebi um gesto brusco, uma

resposta agressiva, uma cara fechada, um ar de intranqüilidade. O bom humor impera por

toda uma jornada de 12 horas, seja dia, seja noite. Como só estive sob os cuidados deles

por 72 horas, não tive tempo para notar alguma falha comportamental. Como humanos,

AS MÁQUINAS

Para cada paciente são destinadas duas maquinas. Uma regula o fluxo de

medicamento receitado pelo medico responsável; a outra monitora todos os sinais vitais

do enfermo. Uma noite, ou melhor, madrugada, estava eu semiconsciente, entre o sono e

a vigília quando escutei alguém gritando: Ele morreu! Ele morreu! Ao mesmo tempo em

que ouvia um atropelo de passos vindos em direção de minha cama. Abri os olhos, olhei

para a máquina, olhei para o enfermeiro e gritei:_Morri não! Morri não! Tô vivo, tô vivo. E

o vexame morreu na nascente. A máquina estava quebrada, precisava de manutenção. Foi

substituída e eu ressuscitei. Em minha vida, quantas vezes já fiquei parado em estradas

ermas durante a noite? Quantos aviões já caíram por falha mecânica? Quantos navios já

encalharam? A máquina é produzida pelo homem que não é perfeito, logo, máquinas são

Uma maquina em particular me chamou a atenção: “a máquina que controlava o

fluxo de _ TRIDIL _ “. _O que é tridil? Perguntei à enfermeira. _É o remédio que lhe

permite continuar vivendo, respondeu ela, toda bem informada. É verdade que o tridil

salvou minha vida em vários momentos, mas também é verdade que me fez prisioneiro do

leito. Eu não tinha liberdade de movimentos, estava refém de um leito, relativamente

estreito, alto, e com grades laterais. Uma prisão a céu aberto (dentro de uma sala imensa).

_Mas eu só quero colocar as pernas pra fora, balançar um pouco, nada demais!

_Não pode, respondia o algoz, vassalo do tridil.

_Por que não pode?

_Tridil não deixa.

_E tridil tem vontade própria?

_Claro que tem! Se eu desobedecer perco meu emprego...

_Esse tridil é um carrasco, um torturador de seus empregados, porque vocês não se

reúnem e o denunciam?

_Não esqueça que é graças a ele que você está vivo.

Uma noite sonhei que estava quase dormindo, quando vi uma sombra aproximar-se

de minha cama. Só havia uma luz acesa na sala e percebi um vulto que se aproximava

sorrateiramente, como se quisesse me fazer um susto. Aquela figura macabra chegou ao

lado da grade do meu leito, levantou um pouco a cabeça e gritou: TRIDIL! TRIDIL! TRIDIL!

Dei um pulo na cama, olhei por lado e não vi nada. Tudo havia desaparecido. Pesadelo

com remédio só mesmo em hospital.

VIZINHOS DE INFORTÚNIO

Minha vizinha da esquerda, uma linda senhora na idade da prata, adorava a hora do

banho. Corrida a cortina, fechado o cubículo, começava a grande aventura de um banho,

com pouca água, com os cuidados necessários para não encharcar o lençol, para não

transformar o leito numa piscina. É uma atividade de mestre experiente. Não sei como

conseguem. Eu tomei meus banhos no banheiro, com direito a chuveiro, sabonete liquido,

e toalha grande. Uma maravilha.

Pois que, minha senhora prateada, num determinado momento perguntou:

Djanira, você está me dando banho com “detergente?” _Dona Escolástica, a senhora

acha mesmo que eu iria banhá-la usando detergente? Isto é sabonete liquido, do melhor

Quando eu ouvi aquele desagravo, não me contive e caí na gargalhada. Daquelas

gargalhadas altas, sonoras, sem pudores. Nem tive tempo de perceber que estava em uma

UTI. A enfermeira chefe do turno disse indignada: _Seu Anchieta, pelo amor de Deus, isto

aqui é uma UTI! Por favor, comporte-se. A única coisa que eu podia fazer era pedir

desculpas, o que não ia adiantar nada, o estrago já estava feito.

ENSAIO GERAL

Geralmente acontecia nos finais de tarde, aí pelas cinco, cinco e meia da tarde.

Começava com uma dúbia relutância, meio que inibidos. Um dava um tom aqui, outro

respondia acolá, e aos pouquinhos íamos deslanchando, estabelecendo contato, perdendo

o medo de soltar a voz, ou melhor, a tosse. Era um festival de cacofonia destoante,

começando com pigarros, revertendo para tosse, e por ultimo para tosse aguda,

irrefreável. Cada um com seu tom, com sua potencia, com graves e agudos, soprano,

barítono, com ou sem ritmo. Liberdade absoluta, afinal nós somos uma porção de velhos

temperando a garganta, qual pirâmide tonal, no mínimo, subversiva.


HORA DA VISITA

Tínhamos direito a meia hora pela manhã e meia hora de tardezinha. Esperávamos

esta migalha de tempo como quem espera o anjo salvador. Com os braços estirados

em direção à porta do templo sagrado, agarrávamos fiapos de esperança nas feições do

primeiro que adentrasse o ambiente. Como “et’s” esquálidos, o globo ocular vagando na

orbita celestial de um vácuo sem som, sem luz, sem cor; apenas girando para encontrar

a figura amiga, o parente, a mulher, a filha, o filho, o amigo distante. Cinco minutos para

cada um, representa uma eternidade. Os assuntos nem conseguem preencher tanto

tempo. É muito mais aflição que língua nos dentes. Um aperto de mão fugaz, uma lagrima

que escorre opaca, um riso sem brilho. O outro já vem! Quem será? Oh! Não esperava vê-

lo (la)! Que alegria! O triste é que nem dá tempo para mastigar a saudade, para curtir o

sabor da presença, para acariciar a pele da distancia. Oh! Terminou o horário de visitas...

Quando saio daqui? Quando saio daqui???...

Todos querem sair da UTI, como se aquele ambiente fosse o ultimo baluarte da

masmorra prisional. Ninguém se apercebe que é exatamente ali, na UTI que existe o

ultimo fiapo de vida, de esperança, de bondade dos enfermeiros(as), dos médicos(as), de

todos que estão sempre prontos para nos atender. A nossa linha do tempo depende única

e exclusivamente deles, daquelas pessoas que nos acolhem como se fossemos seus filhos

queridos. Deixei a UTI com uma tremenda saudade dos meus ANJOS ETERNOS, ANJOS DA

NOITE, ANJOS DO DIA, ANJOS DE TODOS OS MOMENTOS. APENAS “ANJOS”.

Anchieta Antunes - Gravatá – 12/09/13.




“I N F A R T E I”

_PARTE I _ “A DOR”.

Chegou de mansinho como quem não quer incomodar; sorrateira e silente, até

porque dor não emite som, apenas faz o agredido berrar imprecações. Era uma sexta-feira

(23/08/13) por volta das 22:00 hs., e eu assistia minha novela preferida da noite. Não era

uma dor localizada no peito; estendia-se pelo pescoço e pelo braço esquerdo. Apenas um

incômodo que chateia. Logo depois chegou meu neto da faculdade; ele vinha saltitando

numa perna só, como se fora um saci perere. _Que aconteceu? Perguntei curioso.

_Depois da ultima aula, resvalei no degrau da escada. Torci o pé, doe pra cacete.

Continuei olhando, sem muito interesse, para a TV. no momento em que o vilão

alcança seu intento. Foi quando a dor bateu na minha porta e se anunciou: _Cheguei e

vim pra ficar! Onde devo me instalar? Perguntou atrevida e senhora de si.

Ela mesma escolheu seu lugar, pois, por mim iria embora imediatamente. O

coração. O meu coração!!! Instalou-se e foi num crescendo, como os acordes finais da

ópera de Claudio Monteverdi. Entrou na minha mais absoluta privacidade, sem pudor ou

remorso. Aos pouquinhos foi tomando conta de meus sentidos mais bisonhos. Quando

pedi a Yves para chamar “vóinha”, ele que curtia sua própria dor no tornozelo, pulou do

sofá e foi gritando, avisar que eu precisava de ajuda.

Este foi o primeiro momento, que perdurou por 6 horas consecutivas. Primeiro

chegou o SAMU, com seus aparelhos quebrados, levando porradas à direita e esquerda,

pelos técnicos envergonhados por não disporem de um simples aparelho para fazer um

eletrocardiograma. O médico, coitado, bocejava o sono de uma semana, completamente

dormido em pé. Naquele estado lastimável de fadiga não tinha o menor discernimento

para a tomada de uma decisão de vida ou morte. Resolveram levar-me, todo amarrado à

maca, para o Hospital Regional. Lá, o aparelho funciona, diziam os técnicos. Meio que

sentado ou em pé, junto a uma cama forrada, esperava a chegada do eletro. De um

corredor sombrio surgiu uma mocinha montada em seu salto 12’, bem apropriado para

uma enfermeira trabalhar no turno da noite, em um hospital do interior.

‘_O eletro está funcionando? Perguntou alguém.

_Claro! Está funcionando perfeitamente, quem é o paciente? Achei muito estranho

ela não perceber de cara quem era o paciente, enfim! Colocadas todas as chupetas em

meu peito, o aparelho foi ligado. Apitou, chiou, reclamou e parou. _O que é que está

acontecendo? Vociferou o medico. A mocinha mais perdida que vira-lata em procissão,

não sabia o que fazer, até que uma idéia genial lhe ocorreu: levantou a tampa do deposito

do papel do eletro. Ih! Falta papel. O papel foi colocado e o eletro saiu brandindo

gráficos sinuosos e altaneiros. O médico de plantão, um cidadão de seus “cinquentinha”,

olhou ao redor, manjou a situação e perguntou: _Quem é o paciente? Foi neste momento

que conclui que não tinha mesmo cara de enfermo. _É o meu marido, doutor, disse

minha mulher. _Tem plano de saúde? Perguntou rápido. _Temos sim doutor. _Pois vão

embora para Recife. Imediatamente, disse sem rodeios.

Foi o que fizemos, imediatamente.

Durante o trajeto a Recife eu não sabia onde colocar os braços, a cabeça e até

mesmo o coração. Uma dor excruciante arremeteu meu espírito de cavaleiro andante

para a soturna caverna do sofredor solitário. Talvez chegássemos a Porto Alegre, antes de

Recife. Foram os 80 km. mais longos de minha vida.

Nas imediações de Bonanza Yves ligou, via celular, para o Memorial Hospital São

José, solicitando uma equipe de prontidão para um infartado. Devemos ter chegado ao

hospital por volta das três da madrugada. O cardiologista de plantão, um jovem

abnegado, fez os exames preliminares e me encaminhou ao um posto avançado para

esperar a equipe cirúrgica que já havia sido acionada. Três ou quatro profissionais da

saúde, cirurgião, anestesista, auxiliar e não sei mais o quê, dormindo a santificada

madrugada do sábado, foram acordados para mais uma vida ser salva. Percebi que

estavam todos alegres, sorridentes, como se tivessem chegado de uma tertúlia, para mais

um dia de trabalho.

Fiquei tão entusiasmado com o surgimento da equipe cirúrgica que até esqueci da

dor. Eu continuava ali, sentado, em pé, movendo os braços, a cabeça, torcendo o torso,

pedindo urgência, enquanto a sala cirúrgica era preparada. Resolveram me aplicar 5ml.

de morfina. _Com esta morfina a sua dor vai passar, disse o plantonista. Três ou quatro

minutos depois ele me perguntou se a dor havia passado, e eu respondi:_ Doutor, o

senhor me aplicou “placebo”, foi a mesma coisa que beber água e esperar uma resposta

positiva. Continua doendo do mesmo jeito. Desistiram de lutar contra a dor, eu era

valente e podia fazer frente a ela, sem muito estrago.

Às cinco horas da manhã, acordei na UTI acompanhado pela enfermeira Penha.

Sem dor, sem espera, sem pressa, apenas uma bela cama que me acolhia pronta para

ninar meu sono, ainda anestesiado. A cirurgia havia sido um sucesso. Naquele momento

era dono e senhor absoluto de dois “stents cardíacos”, colocados nas minhas entranhas, à

minha revelia, mas que, inda consultado, teria concordado, e os carregaria pelo resto de

Esta foi a primeira fase de minha resenha cardíaca. Aos pouquinhos vou

avançando e recompondo meu organismo debilitado.



I G R E J A


Minha mãe sempre me dizia:_Meu filho, quando for entrar em uma igreja, não se esqueça de fazer silencio; sente-se ou ajoelhe-se contrito, faça sua prece com fé, sabendo de antemão que, para você, sempre virá  o melhor, que seus desejos serão realizados no tempo correto.  Desanimo é sinônimo de capitulação, de frustração.
E assim eu sempre caminhei pelas sendas escolhidas por minha mãe. Nunca me dei mal, nunca me arrependi. Quando entramos num templo, entramos na casa de Deus, o nicho da salvação, a nossa casa. Qualquer que seja a crença, a casa de Deus é sempre a mesma, acolhedora e mística.
Ao longo dos anos pude ver milhares de fieis entrando em igrejas. Poucos vão para agradecer; muitos entram com o pedido gravado na memória, como se estivessem se preparando para uma prova. Alguns pisam a nave principal apenas para usufruir da magia solene do templo sagrado.
Angelina, uma senhora com mais de oitenta anos, joga seus joelhos rombudos na madeira dura do banco seco. Roga aos céus um milagre quase impossível de se alcançar. Ela não quer nem pode perder a casa onde descansa sua ossada todas as noites insones. O filho é viciado e deve aos traficantes que ameaçam tomar a casa da velhinha. Como fazer para não perder o único bem de que dispõe? Só mesmo apelando para um milagre!
Procissões de almas desgarradas vão em direção à Nau Capitânia com os corações pulsando esperanças e vêem-se frente a frente com o cotoco  batendo forte, marcando compasso; com um olho escondido, um chapéu de ponta, brandindo uma espada enferrujada, solapando as ultimas esperanças da turba ignara em  busca de refugio no manto sagrado do desconhecido.
Gentes que esperavam ver, mais que um homem, uma mancha corpórea, com barba reluzente, com olhos profundos, com mãos de afetos. Esperavam encontrar um Deus Cristo acolhedor, para sanar suas dores, pensar suas feridas, abrir suas portas.
Quando entramos numa igreja esperamos perceber, além das sombras das majestáticas colunas, além da voz rouca do velho abade repetindo o cansaço de todos os dias, o tédio da solidão, o uso das mesmas palavras vazias que repete há trinta anos, esperamos desfrutar da chispa de luz carregando as venturas do porvir. O que vemos não passa de uma réstia de luz azulada que atravessa o vitral empoeirado acima de nossas cabeças exaustas de olhar pra cima.
Quando entramos numa igreja buscamos vida vibrante, paz, entendimento, compaixão e a “aleluia” do perdão universal. Queremos ouvir a palavra amiga, o gesto ameno e afetuoso, o sorriso franco, a mão estendida.
Igreja não passa de um templo de silencio, onde procuramos o que ali não foi perdido. Não queremos ver diante de nós os homens de preto julgando-nos como se fossem superiores, ou se tivessem a aura da santidade conferida por Deus. Apenas queremos o perdão da angustia, a serenidade do manto sagrado, a textura da paz, o pão nosso de cada dia.
Os homens coloridos, com toga de santos, ofuscaram nossa visão de peregrinos na busca do verbo divino.
Ah! Deus, onde estás que não te vejo?
Procure com fé e esperança, e não com os olhos. Os olhos são cegos para o desconhecido, para o milagre oculto em nossos corações.
Abram-se as portas dos templos e deixem que entrem os fies da magia espiritual.


Anchieta Antunes
Gravatá -  06/08/13





FIM    DO    HOLOCAUSTO - MAIO DE 1945_ Autor: Anchieta Antunes
68º ANIVERSARIO DO FINAL DA II GRANDE GUERRA MUNDIAL.
PARA   RELEMBRAR

A brisa salgada soprava do leste, morna e úmida, constante e inexorável. A mensageira aziaga trazia dos mares profundos o desabalo da intolerância.
Estejam alertas! Estejam prontos! O holocausto aproxima-se; o verdugo possessivo aproxima-se, e seres deambulando com medo e pavor da pele que ostentam, da seita que pregam, do deus que veneram, escondem-se inábeis nas cavernas do pânico. Os escorpiões com suas lanças venenosas, com suas cruzes suásticas, com  suas águias douradas chegam perto, sorrateiros, covardes e implacáveis. Geram a morte, a  fome, o escárnio, o terror a quem nasceu alhures, alguns até negando o lugar de onde vieram.
  O brilho da gente ariana  é opaco, de mãos vermelhas por ceifar espíritos airosos, que refletiam o fulgor inerente aos inteligentes, aos profícuos batalhadores da raça judaica que se perpetuou em busca da terra prometida.
Hoje são bravos guerreiros afeitos à luta, legionários da chispa de vida montados no cavalo da coragem; aguerridos que são não fogem à escaramuça, não descansam o brio, nem envelhecem a vontade, nem perdem  a fé. Ontem entregues à própria sorte nos campos de extermínio, coalhados de corpos inertes que adubavam o solo, colo de Deus, para aqueles esquecidos.
Forças aliadas petrificadas com a visão dantesca do flagelo da loucura, da soberba, da intolerância levada até o crime de “lesa humanidade” , observam os matizes da maldade.   Entre essas tumbas comuns, de repente abriu-se um olho quase morto, sem fôlego, sem alento, contudo com vontade de ver novamente o sol brilhar no céu azul. Com a boca esgarçada, um sobrevivente gritou o brado dos que não se entregam sem pungente duelo. Com a determinação dos ventos uivantes clamou por seus pares, chamou-os para ressurgir da orla da dor, para visões de esperança; levantou-se ereto e caminhou o primeiro passo do seu retorno glorioso.
Os maus sucumbiram, as naves infaustas soçobraram, os escudos quebraram, os tanques calaram, a tempestade da justiça lavou o esbulho  dos tempos nefastos. O globo voltou a girar sem interstício.
O firmamento garboso de luz e cores deu as boas vindas aos arautos da nova verdade, aos homens que venceram o turbilhão de balas e baionetas, vivendo agora em  tempos de paz, recebendo  o sopro cálido da justiça perpetrada.

Gravatá- 27/07/13





O    MURMURIO    DO    SILÊNCIO



Três milhões de silêncios. Como um bloco sólido de respeito e louvor a Deus, levitando sobre os corações dos humildes filhos do Senhor. Poder-se-ia ouvir o farfalhar das asas da borboleta sobrevoando a massa imensa que reverenciava a presença do Santo Padre, o Papa Francisco, humilde e pródigo nos gestos de amor ao próximo.
Foi bonito ver, foi emocionante sentir a obediência dos corações em transe de fé. Caminhadas ingentes transportavam aflitas o desejo de, mesmo de longe, enxergar o Para Francisco. Ter sua mão sobre a cabeça seria a gloria. Beijar-lhe a mão consagraria o espírito. Ganhar um abraço seria, no mínimo, alcançar o estado de graça tão desejado pelos que têm fé.
Papa Francisco, mais homem que Papa. Modesto em sua grandeza monástica distribuiu bênçãos, sorrisos e compaixão. Trouxe um novo alento aos desiludidos, coragem aos que sucumbiram sob o peso do dinheiro nefasto. Revigorou a solidariedade aos esquecidos e embrutecidos homens que vagueiam pelas ruas da desesperança.
Papa Francisco e o silêncio papal; silêncio quilométrico e autentico que vibrou como o som do diapasão na noite chuvosa de Copacabana. O relaxante barulho das ondas rodeou a todos como se fosse um manto sagrado, envolvendo-os com o sentido universal da paz, naquele momento supremo de contrição. Lágrimas rolaram dos olhos encharcando a areia molhada pela chuva. Ninguém se moveu, ninguém se exaltou, a não ser em preces.
Dias gloriosos para os jovens de todas as idades, caminhando a via sacra que cada um carrega dentro de si. Os pecados foram esquecidos, as desavenças foram abandonadas no cadinho das elevadas emoções. Deus estava presente, abençoando parte da humanidade aquinhoada pelo Seu olhar de benevolência, de perdão, de amor.
O Papa Francisco mostrou o caminho da dignidade, da sabedoria de vida, da retidão nos gestos mais simples. Ele veio para fixar residência em cada coração, mesmo os perdidos pelos caminhos da desordem comportamental. Ele veio para ficar. FICOU.
Nós o teremos de volta em 2017, quando dos festejos de comemoração dos 300 anos do aparecimento da Virgem de Aparecida no rio que margeia a região, acolhida por pescadores. Que chegue logo, trazendo novas mensagens de tolerância e compaixão.
Anchieta Antunes
Gravatá –  28/07/13





COMPARTILHANDO  MAZELAS



Tenho quase 76 anos! É tempo pra cacete, cara! Mais de meio século; mais do dobro da vida de Cristo. Por que preciso de tanto tempo? Não que queira morrer, claro que não! Do jeito que ta, ta bom demais! A questão é que são dias em demasia, e os  dias vão enferrujando as juntas, assentando os discos da coluna, vergando o porte, dobrando a coragem. No final, pra quem olha de longe, ou mesmo de perto só enxerga uma moqueca do que foi gente, de quem teve, um dia, garbo e presença. Cabelos de prata, dentes de ouro, ossos quebrados. Que merda!
_Não reclama, cara, o coração continua latindo, o sangue correndo e sua memória está ótima, você ainda se lembra  do seu nome, quer mais? 
Não que esteja reclamando, até porque não adianta de nada, o tempo não retorna. Só estou fazendo um balanço, uma avaliação do que sou e do que fui. Alguns vão pensar que o saldo é negativo; ledo engano, o saldo é bem positivo. Será que não valeu a pena o que vivi, o que aprendi, as aventuras que desfrutei? Conheci mais de 15 países, comi comidas que nem sabia que existiam! Naveguei mares, rios e lagos. Remei, nadei, bronzeei-me em sois estrangeiros. Cavalguei cavalos de mil raças, cortei churrascos, bebi dos melhores vinhos, embebedei-me com uísques de até 50 anos. Aproveitei mesmo!!!
Na minha atividade profissional corri perigos e fui perigo. Fiz-me entender em línguas desconhecidas para mim, e até mímica usei como meio de comunicação. Dormi em cabines de luxo e em cavernas escuras. Talheres de prata usei algumas vezes, bem como comi com outros de plástico. A vida é como o casamento: _”na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença”. Tenho guardados na memória, grandes baús de experiências, de cortes pensados, de risos sonoros, de alegrias concretas.
Minha amada, amante, companheira de todo o sempre, já está beirando os 68 aninhos, e continua firme e forte. Permanece sendo meu esteio, minha muleta. Nela escoro-me para continuar a caminhada. É verdade que,  como eu, já está precisando usar alguns calços, algumas cunhas para ver-se ereta, linda e maviosa. A memória anda capenga, mas que há de importante saber com exatidão o dia que está vivendo? Somos aposentados, não temos compromissos com o mundo, então o mais importante é viver cada dia como se fosse o ultimo, e por ser o ultimo não interessa saber se é segunda ou sexta-feira. O número do dia? Qual a importância de ser 2, 10 ou 20, se é apenas um número? Ninguém se alimenta de sextas ou números, melhor é conseguir uma cesta cheia de macaxeira, que dá “sustança”.
Quando ela esquece, eu lembro, quando eu esqueço, ela lembra, e assim vamos nos empurrando em direção ao abismo final, e diga-se com ligeireza, sem nenhuma pressa para observar a vida no outro lado da montanha. O outro lado ainda não é nosso, e por não sermos consumistas, não queremos comprar nada só para ter guardado. Deixe o outro lado pra lá, o nosso está bom demais.
Não me lembro de alguma vez, ter dito:_querida, suas pernas estão melhores que as minhas! Por que não posso ter as pernas tão boas quanto as suas?
Isto seria uma grande bobagem, cada um tem o que nasceu para ter! As dela não podem ser minhas pernas e vice-versa.
Ela jamais diria:_querido, seu coração está como o de um jovem, e o meu, uma droga. De que adiantaria dizer semelhante “isso”? Cada qual com seu cada qual, e fim de papo.
Continuamos desbravando veredas desconhecidas e para nós, já perigosas e escuras (a visão tá uma merda!). Seguimos picotando os dias e tricotando memórias inenarráveis. Somos felizes segundo a segundo; é verdade que muitas vezes há intervalos grandes, mas de vez em quando ela surge à nossa frente quando menos esperamos; momentos que sabemos aproveitar para sorver uma grande taça de humanidade.
Assim nos ensinou a experiência, e para provar, temos nossos calos à  vista de quem quiser ver...


Anchieta Antunes
Gravatá –  30/07/13




INCONDICIONALIDADE



Biblia: história de Rute.

_”Aonde fores irei, onde ficares ficarei; o teu  povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus; onde morreres morrerei, e  ali serei sepultada”.
   Este é um amor incondicional, irrestrito, com vendas nos olhos, e o sangue jorrando coração adentro. Amor que não cogita de perdão, porque não há pecado, não há prevaricação nem  vilania. Amor que se orienta pelo rastro dos sonhos, pela  sombra da fidelidade, que vibra o frêmito do  companheirismo.
A mulher inteligente que ama, tem os olhos fechados para o caminho tortuoso do homem indômito, do conquistador de territórios alhures, o homem que  domina o medo, que, retesados os músculos, enfrenta feras e outros homens que lhe queiram domar a fêmea.
A mulher inteligente que ama, não carece de ciúmes, de cenas, de domínio verbalizado; o amor é o elemento dominador e silencioso. O homem sempre retorna para seu lar, para o aconchego dos braços que lhe envolvem sua alma branda, em tempos de repouso.
A mulher inteligente que ama, respira domínio que transforma em amalgama a pujança do homem  que se pensa  “macho”; assim como o fogo que crepita no forno derrete o aço e o transforma, a mulher, sem alarde, transforma o homem, dando-lhe molde, doçura, companheirismo e virilidade.
O homem pode ter a força do leão, mas, será sempre vencido pela mulher inteligente. Para ratificar este raciocínio não cabe lógica basta o poder de observação. A história confirma.


Anchieta Antunes
Gravatá  – 1º de julho de 2013.




CAMINHOS    TORTUOSOS



_Pelos vulcões do Everest! Pelas barbas de Salomé!
_Para...para...para. Cara, no Everest não há e nunca houve vulcão, menos ainda
vulcões; pelos parcos conhecimentos que me foram aquinhoados, não me  consta que
Salomé, um dia, teve barba. Influenciada pela mãe prevaricadora, pediu que lhe fosse
entregue numa bandeja de prata, a cabeça de São João Batista. O  pobre do santo morreu,
de graça, porque a incréu não tinha personalidade. E você, cara, quando quiser usar um
jargão apocalíptico, procure informar-se com zelo profissional, antes de sair por aí dizendo
bobagens, como barbas de Salomé, e, por favor, deixe o Himalaia dormindo em paz sob o
manto de gelo, de neve, de frio glacial;  não acorde o gigante... é um perigo incalculável.
_Meu irmão,  com todo respeito, já vi que você, da profissão de escriba desocupado,
não entende nada. Afinal de contas a tal da “licença poética” foi criada pra quê, por quem?
Eu mesmo respondo: algum escritor, ávido por lançar suas ideias malucas, com muita imaginação e pouco conhecimento, apressou-se em criar um atalho, que ele chamou de
licença poética. Estavam resolvidos todos os seus problemas. Ele podia escrever qualquer
barbaridade e jogar por cima a “cortina de fumaça, chamada licença poética”. Sem erros,
sem percalços, sem criticas, seus textos eram lidos e relidos com o deleite do permitido.
Agora sou eu quem fala, ou melhor, quem escreve, e não esses dois pensadores
Não tenho a menor ideia de como surgiu a tal da licença poética; o fato é que ela
existe mesmo e quebra um galho danado.
Quando alguém se senta à frente de uma maquina para escrever, para se
desvencilhar de ideias que tenham ocorrido, e, ao mesmo tempo, sem ter tido o cuidado
burocrático ou acadêmico de, com tempo e cuidado profissional, ordenar, justificar,
organizar e copilar mentalmente as ideias, a imaginação, precisa de uma variante para
dedilhar o que lhe vem à mente. Muita gente escreve sob a égide da improvisação, como 

se estivesse ocorrendo um surto de letras, de palavras empurradas pela imaginação
precipitada. Como pensar é rápido e fugaz, não se disponibiliza tempo para programação,
para ordenamento, para o cuidado em colocar cada palavra em seu devido lugar,
formando um conceito, uma imagem, um quadro. Eu poderia chamar essa avalanche de
pensamentos de “cascata imaginativa”. Existe uma urgência premente em jogar no papel
em forma de palavra o conceito que queima no cérebro como se fosse lava vulcânica. 
Quando cada gotícula d’água choca-se, lá embaixo, com a rocha do ufano, a ideia escorre
por caminhos obscuros e tortuosos, sob galhos e folhas, desmoronando barrancos,
destruindo ranchos dos ribeirinhos, criando seu próprio caminho, correndo célere em
busca de seu suicídio nos braços do oceano sem fim.
Assim são as ideias, os pensamentos, a criação literária; quando uma imagem foge,
dificilmente a teremos de volta no mesmo lugar, formando um todo, o quadro fica
capenga, feio, distorcido, com um traço a menos, ou borrado.
O êxtase da criação está contido em um “momento”, um “instante”, um “segundo”,
num “abrir e fechar de olhos”. As ideias são como o tempo, não voltam atrás. Quando
forçamos, ela retorna deturpada.
“As barbas de Salomé”, no mínimo está sujeito a criticas, a deboche, a escoriações
indeléveis. Bom mesmo é escrever, de preferência sem erros, sem apaziguamentos.



“CAMINHOS TORTUOSOS     X   LICENÇA POÉTICA”.


Anchieta Antunes



Gravatá – 24/06/13







N O S T A L G I A




Talho atassalhado
na carne, sem cura
colorido de sangue
nas fimbrias
de um coração partido,
no seio da memória,
nos rasgos da intimidade
quando os pudores
ressecam ao sabor
dos deleites.


Quando as gotas de vida
resplandeciam harmoniosas
no ventre da morte.
Eram ele e ela. 
Agora, ele.
Mente imóvel
no núcleo da dor,
desejo sem corpo,
visões alucinantes,
um monstro etéreo
perdido no cume
da montanha incorpórea,
do ser que se foi
da saudade que fica
doendo ligeiro,
que lava angustias
dos tempos “augustos”.


Anchieta Antunes
Gravatá –  03/05/13




QUINTAL

No meu quintal não permito vilania, nem raízes de ódio, muito menos a espreita de tocaia no tronco da figueira. No mercado da vingança o ganho é  pífio, com taxas de alto risco, sem garantia de retorno, ou com retorno negativo.

No quintal da minha casa plantei uma “piccola” semente com promessas de frutos, de grande sombra para proteger a pureza dos sonhos banhados  com a luz da esperança.

No meu quintal as raízes são vistas através de um solo de vidro, para evitar duvidas, principalmente, para não achincalhar o conceito da virtude, a pureza da oração da aurora. Sonhos e realizações fervilham no cadinho do amanhã. 

No quintal da minha casa planto mil flores, mil cores no caleidoscópio da felicidade em andamento nos trilhos da liberdade de expressão. Observo Deus verter  suas lagrimas puras para dar vida às sementes que não canso de plantar; não preciso regar, nem podar: apenas observar seu crescimento, desfrutar das fragrâncias, das sombras, dos frutos.

No meu quintal vivo o “dolce far niente” da coisa  conseguida, do fato consumado, do sorriso que escancara a alegria na boca, nos olhos, no coração. A cruz que tenho que carregar nos ombros foi feita de gravetos, e pesa menos que a súplica de perdão.

No quintal da minha casa quero o sossego dos conflitos resolvidos, das magoas pensadas, do ultimo curativo. Quero ser um garoto valente, um adulto consciente, o velho falante quando as palavras têm valor, quando são moeda de troco, com contornos e personalidade, com a verdade engastada no tronco do baobá.

No meu quintal não careço da sombra da duvida, do látego vergastando o lombo da mentira; no meu quintal não quero ver ervas daninhas ganhando espaço e afogando a luz do sol com seu voraz manto de dissídios. Quero a paz lunar, o espaço sideral, a borbulha do champanhe na taça de cristal brindando a vida.

No quintal da minha casa quero apenas viver com liberdade, a vida que forjei

    
 MOEDA     A     MOEDA. 


Anchieta Antunes – Gravatá- 06/05/13






 ONDE  O GUARDA - CHUVA GUARDA A CHUVA?



No turbilhão do furacão? Nas cores do arco-íris? No  sopro  do vento? Na curva  do horizonte? Onde, afinal?

Vem,  chuva bendita

mostra tuas gotas

molha minha pele

mata minha sede

alimenta o solo

ria conosco

nos dias de bonança

onde mora a esperança.



Isto não  é um poema ao guarda-chuva, e, sim, uma homenagem de agradecimento aos dias de chuva, quanto vemos nos campos os espelhos nos poços, o brilho das escamas, a lontra no rio, lavando a poeira do lombo.

Se os espectros conseguissem se levantar do tórrido solo nordestino, voltar a pastar, a lamber sal e a tomar água no açude, teríamos um tempo de louvor, teríamos o sorriso nos lábios, os cabelos banhados, cheirando a lavanda, a  sopa na mesa, o circo lotado e o palhaço rebolando seus gracejos para uma plateia expectante, presa no transe da surpresa, a alegria espalhada sob a lona com as bobagens do bufão.

Se a água descesse dos céus para lavar nossas angustias, curar nossas feridas, se ela viesse molhar nossos pastos, encher nossas represas, gerar energia, produzir calor, traria esperança, força de continuar lutando, de estofar o peito e levar pra frente nossos sonhos, hoje minguados.

Os guarda-chuvas seriam todos, propositadamente, fechados, para o homem sentir na cara a ternura úmida  da gota alvissareira. Pra que secar um  rosto que nem mesmo as lagrimas conseguem molhar? Um rosto que há décadas não sente o brilho, o fulgor, a gloria de um  dia de chuva? Chuva, onde estás? Por acaso escondida por trás destes nimbos brancos, sem vida, sem  viço, sem força ou forma? Desce daí! Vem nos dar  bom dia, por que não te nutres de educação e vem nos saudar? Por acaso queres molhar o céu, ou lavar os pés do Senhor?

A quanto tempo não vemos um guarda-chuva passeando pela cidade? Nem lembro mais... A chuva traz em seu manto o vírus da gripe? Não se preocupem, nós estamos loucos para sermos inoculados por este vírus! Que venha a gripe, não sem antes ser conduzida pela tempestade. Queremos tempestades,  queremos...

Vão derrubar casas, pontes,  prédios, barracos, vão destruir estradas? Não importa, depois voltaremos a construir tudo novamente. Queremos tempestades para afogar peixes e tartarugas... coisa inédita? Que seja!

Queremos ver um grandioso desfile de guarda-chuvas nas ruas de todas as nossas cidades, todos fechados, sem nenhuma utilidade, e todas as pessoas ensopadas de gotas milagrosas. Afinal de contas, em casa temos toalhas e roupa seca. Ou o melhor seria ficar molhados por uma ou duas horas, tiritando de frio, os dedos enrugados, os cabelos escorrendo, os olhos semicerrados pela força da cortina d’água?

O objetivo é ouvir a vaca mugir, o touro arremeter, o cabrito berrar, a ovelha saltar, todos de cabeça baixa, ... PASTANDO – COMENDO – FORTIFICANDO-SE -

                           TODOS    MOLHADOS, BASTANTE MOLHADOS  -  E FELIZES.



Anchieta Antunes

Gravatá  = 12/05/13





A    ORIGEM    DA    VIDA

Tudo começa num frenético exercício corporal, o suor escorrendo como se fora o delito flagrado da agonia horizontal. Aconteceu a vida em flor, colorida e farfalheira; e o resto? O resto é só caminhar! Dois braços, duas pernas e meia dúzia de neurônios. O pacote está completo, daí pra frente é com cada um. Dá teu jeito, malandro, ou quer já mastigado? Se  fosse fácil seriamos 12 bilhões!

O grande segredo está contido nos anos de aprendizagem. Sendo assim, sabemos que o primeiro passo é aprender a viver; o segundo passo é: continuar aprendendo a viver, e assim vai até o 10º passo. Quando concluímos o aprendizado, está quase na hora de ir embora. A sacanagem é que não podemos deixar de herança tudo o que aprendemos, não existe Cartório para registrar este tipo de inventario, do contrario seria uma competição desleal. “NÃO NASCEMOS POLITICOS”, nos transformamos depois porque somos safados. Toda massa precisa de um leader, como o fermento na massa do bolo.

Enquanto crescemos vamos aprendendo aos trancos e barrancos, na marra. Somos obrigados de dedicar noites insones em cima de livros, de compêndios os mais diversos, de apostilas, de jornais e revistas. Quem não tiver boa memória está fadado à derrota, escorregando ladeira abaixo, como bujão de gás, sem gás.

É cansativo? Claro que é! Mas, ao mesmo tempo, é gostoso. Aprender é uma dádiva divina. Nunca paramos de aprender. Como disse o velhinho com cinza na mão e uma brasa brilhando:_Morrendo e aprendendo! No barraco não tinha vela. Tinha sim, uma velhinha inventiva.

Uma das maravilhas da vida é a diversidade de padrões, a euforia do sol, a linha do horizonte, que estamos sempre querendo agarrar para chegar mais longe. As cores, as flores, os pássaros, as madeiras e as rochas. Tudo está  ao nosso alcance. Não espere que venha até você, levante-se, caminhe e vá procurar o que lhe convém. Afinal de contas, caminhar faz bem pra saúde.

Quando eu tinha 5 anos, queria ter 10. Com 10, queria ter 20 ou 30. Hoje que tenho mais de 70, quero voltar aos meus trinta, cheio de saúde e vontade de escalar o Himalaia. Minhas serras de hoje, só as escalo de carro, de preferência bem confortável.

A origem da vida é um mistério indecifrável. Existem milhões de teorias, de especulações, nenhuma certeza, mas, que é bom lá isto é! Pra que perder tempo querendo dar uma de Deus? Vamos apenas viver da melhor maneira possível. Eu estou muito satisfeito. Não quero nem troco. 



Anchieta Antunes

Gravatá 11/05/13






FRUTOS DA AMAZÔNIA


ABIU

Translucida baga
devassa,
de sabor exótico
de textura sedosa
pingando nos lábios
pétalas de amor
gotas de luxuria

Fios de verde esmeralda
rasgando sua polpa
confere laivos acetinados
de orgasmo ensandecido.

Abiu dos meus sonhos
de minhas noites insones
abiu dos prazeres carnais
da lascívia exposta

onde estás
que não te alcanço
Onde te escondes
que não te vejo

Abiu das minhas serestas
vagueando as ruas da noite
chupando a saliva da fruta
mordendo o seio da puta.

Abiu
que hoje é quimera
que gira nas arenas do norte
que enche a minha vontade
de voltar
Voltar à réstia da morte
que habita lá
pela Amazônia do Norte

Anchieta Antunes
18/12/12







REDONDO

Redondo como a lua acesa
o sol incendiado
Marte em labaredas
a curva do anzol
a roda na ladeira
redondo
com destino incerto.

redondo como o encontro
de corpos no fogo da luxuria,
da dança apocalíptica
da sedução e da vigília,
do ardor do gozo
do mel escorrendo
no desfiladeiro desconhecido.

redondo como a vida
vivida vida abaixo
sem expectativa nem êxodo
apenas sentindo o prazer
do momento em transe
da cegueira absoluta
rolando
para as armadilhas do tempo

Rolando – redondo
Vida vivida.




Anchieta Antunes
13/04/13 - Gravatá






MAÇÃ

Mater, mãe, madrigal.
Semente de vida,
cianeto de morte,
pecado original.

Maçã, mãe,
carmesim de lascívia,
a primeira mordida,
a ultima da inocência.

Lábios intumescidos,
laico prazer intrínseco
de natureza epistolar,
nos subúrbios do humano.

A primeira vida,
a ardência na pele,
o ranger dos músculos,
o eclodir da paixão.

Como sobreviver?
Penetrando...
Germinando.
Procriando.

Colapso da mente,
urro de fera,
carne com carne,
pele com pele,
jorrando um rio
de sangue novo
de “intellectus”
vibrante e vivificador.

Mater,
mãe da opulência,
cárcere dos vícios,
espelho da vaidade,
fruto do pecado.

Mãe,
tapete do amor,
senhora das virtudes,
eloquência de vida,
regaço do repouso,
manto da sabedoria,
aconchego singular.

Mãe,
sem ti
não há vida,
não existe filosofia,
apenas sons abafados
de vidas em estertores.

Mater, mãe, madrigal.

Anchieta Antunes
07/12/12



EU E A POESÍA

Jamais andei em sintonia com a poesia. Não conseguia entender o recado, a mensagem, não enxergava o objetivo. Ao terminar de ler um poema, percebia estar completamente fora de tom, não entendia mesmo!.
Até que um dia Dea me mostrou uma poesia de sua lavra. Li e reli e me debulhei em lagrimas. Que coisa linda. Entendi tudo, entendi todo o significado, toda a abrangência; entendi o conteúdo, a mensagem e a alma do poeta. Fiquei extasiado, maravilhado. Naquele momento comecei a gostar de poesia.
Sem mais nem menos, Dea me diz:_Anchieta, por que você não escreve um poema?
_Eu? Escrever um poema? Não sei escrever poemas! Gosto de escrever crônicas e contos, poemas nunca!
_Tente. Faça uma forcinha, e vai ver que consegue...
Passei uma semana pensando no assunto, e, digo, assustado, tinha medo de escrever uma barbaridade. Um dia tomei coragem e escrevi.
Ela estava na sala, com seu tablet, seu mais novo vicio. Como quem não quer nada joguei a folha perto dela, e me retirei do ambiente. Meia hora depois voltei, olhando para o outro lado, quando a ouvi dizer:_Tá mais ou menos...
Pra mim foi a gloria, um estimulo, um grande empurrão no caminho do lírico. Agora vou explicar porque um “mais ou menos” me entusiasmou tanto.
Tinha meus dez ou doze anos quando mamãe disse:_Anchieta, vá até o Conservatório de Musica e se matricule. Mamãe não repetia uma ordem.
_Conservatório de Musica, pra fazer o quê?
_Para aprender musica, ora!
_Eu? Aprender musica?
_Ouviu o que falei?
_Já estou indo...
Fui, né? Mamãe mandou, tá mandado...
Fiz a matricula, e apanhei uma folha com os dias e os horários das aulas.
1ª aula... um bando de meninos e meninas, todos com uma folha, um lápis e uma borracha. Também ganhei meu material. Uma folha com umas linhas repetidas várias vezes. Em cada começo de conjunto de linhas havia um desenho parecido com um esse (“S”). Eu achava lindo o desenho da clave e pensava: um dia vou aprender a desenhar este esse tão bonito. Nunca aprendi.
Lá na frente o Professor, com uma tremenda cabeleira, falando uma porção de coisas, que eu não entendia nada e todos os alunos concentrados escrevendo ou rabiscando coisas, para mim ininteligíveis. Eu, completamente perdido. De repente o Prof. gritava: Por hoje é só, e eu pensava baixinho: graças a Deus, o que é que estou fazendo aqui?
Uma bela tarde o Maestro disse, sempre gritando: _hoje vamos ter um ditado. Exultei! Ditado é comigo mesmo, vamos lá... aprontei meu lápis, papel e borracha. Hoje eu tiro um tremendo dez, vai ver só!!!
O furibundo maestro sentou-se no banquinho frente ao piano e começou a dedilhar as teclas. E eu esperando o ditado. Ele dedilhando e eu esperando. Olhava para os lados e via a meninada, de cabeça baixa, riscando a folha. Pensava:_todo mundo vai tirar um “zero” e eu um tremendo “dez”, porque ditado é comigo mesmo.
Num momento inesperado o “cabeludo” disse:_encerrado, entreguem as folhas. Entreguei minha folha imaculada, limpinha como havia recebido, virgem e pura como uma donzela. _Menino! Por que não fez o ditado? Gritou o gigante à minha frente, com sua voz de trovão.
_Tô esperando o senhor ditar o ditado, ora! _Já ditei o ditado, fedelho incompetente, escolha outra coisa pra fazer, isto aqui não tem futuro pra você.
Nunca mais voltei praquele famigerado consultório, não, reservatório, não, Conservatório de Musica.
_Mamãe... e contei a ela o que havia acontecido.
_Tá bom! Então vá estudar matemática.
_Matemática? Acho melhor voltar pro Conservatório...
Resultado: não aprendi musica, não aprendi matemática.
Quando completei 16 anos, meu irmão mais velho me presenteou um “VIOLÃO”. O que é que vou fazer com isto aqui? Pensava. Minha única saída era procurar um professor particular de violão. Duas aulas por semana, com duração de uma hora cada aula. Um mês depois: _escolha outra coisa pra fazer, isto aqui não tem futuro pra você. Era a segunda vez que eu escutava o mesmo conselho. Musica? Nunca mais, e foi exatamente o que aconteceu. Musica, nunca mais. Estou muito feliz com minha decisão.
Toda essa estória para explicar porque aquele “mais ou menos” me foi tão encantador. Parecia ouvir o “sininho”, aquele de Peter Pan, dizendo no meu ouvido:_parece que deu certo, desta vez deu certo. Toque em frente. De dezembro/12 pra cá já escrevi 30 poemas. Tem sido o maior sucesso, pelo menos pra Dea. A não ser que ela esteja me enganando...
Para avaliação de todos atrevo-me a publicar neste espaço um dos poemas escritos por mim. Que Deus tenha piedade de mim...




A CASCA DA ARVORE
 
Árvore.
Esperança de sombra
atavismo enrrugado
pela poeira dos tempos
armadura crepuscular
defende a seiva, a vida

Fatigadas
caem as folhas
renova a vida
novo ciclo
constante, constante
engrossa a casca

Raízes que se aprofundam
no ébano granulado
cavernas abstrusas
espaços
a magia
do silencio.

Pilar de fibras
urdidas em tear
intrincado imperativo
secular na ponta
do dedo de
Deus.


Assim sou eu e a poesia...

Anchieta Antunes
12/04/13.
 






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VALMIR VIANA 



Árvore


Cobre-me com teus emblemas
Ramo do campo inspirado,
Teus frutos colhidos
São alimentos imortais.

Árvore que palavra
O nome cultiva a fé,
Estende-se por terra
Verde canção noturna.

Tronco fixo na areia
Sementes soltas por iniciar,
Constelação do cosmo vivo
Métrica dos deuses.

Reges a grande brisa da tarde
Numa forma galgada,
Na branca bandeira da paz
Que calada ergues.

Cubra minha cabeça
Tua natureza eterna,
Há inteligência teu criado
Seja o poema tua origem.





Contemplativo



Contemplativo ergues olhares

De um poema atual há existir,
São às asas da canção
sublimada aos concertos
palavras ressurgir.
Espelho divisor de universo
jardins de auras criativas,
Palco que dança há poética
Do livro pensador aos mares.
Fitando flores em ventania
O colorir de arte desfila,
Em corpo de letras há pena
A escreve alma no seu templo.

Valmir Viana.

Poeta




Orvalho do Éden

Gotas de cristas percorre
há pedra e a terra, como
chuvas sobre os mares as
águas banha todo azul verdejante.

Noites e astros embalam
uma harmonia que dita,
pelo pensar, qual raízes
fixa o mundo numa casa.

Pinta um quadro o pássaro
com há canção dos deuses,
numa atmosfera livre
de campos aos versos liberdade.




Licença Poética

Língua que diz
e faz girar o mundo
mundo não mudo
dentro da palavra.
Tesouro ordenado
pelo universo pronunciado
assobia cantiga
letra da voz, escritos.
Idioma da última flor
mas que solitária,
nos olhos há mirar
cumes esguio da alma.





Valmir Viana.




Poeta


http://sites.google.com/site/valmirviana



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